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O rei da agulha I

03/04/2018

NOTA – Você vai ler um comentário independente, sem enganos, sem mentiras. Se Você entender que não deva prosseguir com sua leitura, delete-o. Nunca suporte o que não gosta. Se não ler, vai perder a oportunidade de conhecer a verdade.

 

Faz tanto tempo, sei lá! Tem mais de 50 anos que conheço o então jovem e concorrido alfaiate, o melhor do Estado, diziam, tinha um corte inimitável, seus ternos vestiam como uma luva. Fui dar com os costados no atelier do famoso Juarez De Martin (De Martin como assina e gosta de ser chamado).


O tempo passou. À proporção das necessidades, de um novo terno, porque os outros estavam apertados, ou um casaco para ir curtir o frio espanhol, passava pelas mãos do famoso De Martin, até em datas recentes e, quase, estou precisando fazer-lhe uma nova visita...


De Martin me vem à memória num instante em que prolifera a falta de mão de obra especializada no Brasil. Mestre da agulha, ensinou a muitos o seu ofício, o que faz com maestria.


Um velho sábio me ensinou algo interessante e que preservo firmemente, passei para meus filhos e para uns jovens que tenho custeado os estudos: “Quando tiver que realizar um trabalho, faça-o bem feito, sem copiar de ninguém. Coloque sua determinação, sua coragem. Só assim você vencerá com amor e dedicação ao que faz”.


Nas minhas idas e vindas ao atelier do amigo De Martin ficava absorto, vendo-o trabalhar com a tesoura, marcando com precisão, com sua pedra de giz o pano caro do freguês que confiava no seu trabalho, na sua agulha, na fiel máquina de costura.


Foi através do talhe perfeito que De Martin conquistou fregueses importantes. Certa feita o governador Christiano Dias Lopes perguntou quem costurava para mim. “Já ouvi falar desse moço. Traga-o para mim. ” Passou a ser a alfaiate do governador, até depois que saiu do governo.


Conheço um mestre de obras que aprendeu o ofício vendo seu irmão trabalhar. Era o ajudante do Pedro, seu irmão e, “seu” Pedrinho e os demais filhos o acompanhavam, mas ninguém esperava que Flávio Kroling seria um misto de pedreiro, mestre de obra, encanador, marceneiro, eletricista, um verdadeiro faz tudo, com uma perfeição tão grande que, quem não o conhece, não acredita o que ele é capaz.


De Martin é um exemplo de mestre de todos alfaiates. Não existe quem tenha mais habilidade na tesoura e na agulha. Simples, decente, de uma precisão germânica no cumprimento da palavra empenhada, com todo esmero que lhe é peculiar.


Exemplos como os de De Martin precisam ser preservados, estimulados. O Brasil tem, na extraordinária maioria de sua sociedade, em numerosas profissões, gente da melhor qualidade, obscurecida por certo tipo de gente que emporcalha a nação.

 

 

 FONTE: JORNAL A GAZETA


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