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Retratos da vida I

02/04/2021

 

O fato ocorreu faz algum tempo. Um senhor, num carro velho, vendia cocadas, na Rodovia do Sol-Norte, defronte à Praia Formosa. Em Santa Cruz, município de Aracruz.

 

Um repórter, de certo jornal da capital entendeu em fazer uma reportagem com o vendedor de cocadas e o pobre homem jactou-se de que seus produtos eram os melhores do mundo e que, com sua comercialização, tinha conseguido formar três filhos, um orgulho para a família.

 

Quando li a entrevista, pensei comigo: está lascado! Seria prudente que tivesse falado um milésimo do que falou. Foi dito, foi feito. O pobre comerciante de beira de estrada, o vendedor da cocada baiana melhor do mundo, foi obrigado pela Vigilância Sanitária a mostrar a casa onde produzia as cocadas, se as paredes tinham ou não azulejos, se seguia todas as normas, se tinha prevenção contra incêndio, se tinha licença municipal, alvará de Saúde Pública, pagava PIS, PASEP, Incra, Seama, Semama, Sechupa, sei lá o que mais, como Imposto de Renda, ICMS, IPI, o cacete a quatro...

 

O homem viu que fazer cocadas era uma tragédia. Ser funcionário público, é muito mais útil, do que vender a melhor cocada do mundo, ganhando mais do que produzindo cocadas, a vida lhe seria bem melhor, embora tivesse a obrigatoriedade de bater o ponto, mas teria gratificações, salário maior do que o vendedor de produtos doces, apenas com um agravante: qual o saco do político que tinha que puxar para conseguir tais benesses?

 

Todas manhãs e tardes, quando passo de carro defronte o Shopping Vitória, meu caminho de casa para o trabalho, como no centro da cidade, também, jovens, pela aparência, válidos, com cartazes feitos à mão, implorando a caridade pública: “Ajudem por favor. Estou desempregado, passando fome com meus filhos. Uma esmola por favor”. As vezes até invocando Deus ou Jesus Cristo, que não os ouve, de tanta gente implorando-lhes favores...

 

O que me preocupa é que o vendedor de cocadas, que tinha sempre um guardanapo para oferecer ao comprador ou um saquinho para acondiciona-las, quando era para atender um pedido de meia dúzia, como eu, desapareceu, mas nas ruas da cidade grande, como Vitória, nas avenidas mais movimentadas, nos sinais de abertura demorada, estão os pedintes implorando a caridade pública, com seus cartazes, ou as vezes um imprudente saltimbanco desmazelado, com suas trapalhadas, as vezes com impressionante agilidade com facões, bolas e outros instrumentos, em busca de alguns tostões, que nos tempos de hoje não são fáceis…

 

Outro dia, saindo de casa após o almoço, com a barriga cheia de carne assada com batatas coradas, produzidas pela nossa irrequieta Maria, fui surpreendido no sinal por um desses portadores de cartazes implorando a caridade pública que se ajoelhou defronte ao meu carro pedindo, por caridade, uma ajuda, para mitigar a fome dos filhos. Pode ser verdade. Pode ser mentira, mas é uma tremenda coragem, uma pessoa se despir de sua dignidade, de joelhos, implorar a caridade pública.

 

Me impressionou profundamente o gesto de um homem tresloucado que se atirou do décimo andar de um edifício para o meio de uma via pública. Pronto! Transferiu todos seus problemas para a terceiros que, as vezes não tinha nada com isso.

 

Casagrande arbitrário, fecha o comércio, suspende aulas, deixa o funcionalismo público em casa coçando o saco, desempregando milhares de pessoas. A troco de que?

 

 

 

 


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